segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lei de Murphy na Fotografia de Vida Selvagem

Mergulhão-pequeno (Tachybaptus ruficollis) 
 
 
 1/2500s, f/8, ISO800, -0.7Ev
Mode: A, Meter: Partial, No Flash, Manual WB
Focal: 500mm, Distance: 5.9m
Canon EOS 7D

Lei de Murphy aplicada à fotografia de natureza.

Normalmente planeio as saídas de campo com algum pormenor e confesso que sou até um pouco "piquinhas" com a planificação do que vou fazer. Contudo, neste fim-de-semana as coisas não foram muito preparadas e a febre de experimentar o novo Hidrohide tomou conta de mim . O objectivo era fotografar os Flamingos e acima de tudo fazer alguns contra-luz. Para isso seria imprescindível que entrasse na água bastante cedo, de noite de preferência. Cheguei à lagoa perto das 6:00 H e se a vontade de experimentar o "Hidro" era grande, depressa arrefeceu ao olhar para o termómetro da carrinha:  - 2º C . A temperatura convidava qualquer um a voltar para casa mas ainda assim montei o material dentro de água e preparei-me para entrar. Normalmente  levo sempre uma muda de roupa porque é usual encontrar terrenos acidentados que propiciem a entrada de água nas Waders. Todavia, para além da temperatura, o facto de conhecer bem a lagoa e saber que não iria encontrar terreno acidentado fez com que arriscasse a levar a roupa que tinha e mais dois "polares" que tinha guardados para o regresso. A primeira hora no Hidro pareceu-me perfeita. Não sentia sinal de frio e o facto de estar a movimentar-me constantemente fazia com que me sentisse ainda mais quente - começava, inclusivamente, a sentir calor.

 Perna-longa (Himantopus himantopus)



1/20s
f/8
ISO800
Mode: A
Meter: Partial
No Flash
Auto WB
Focal: 500mm
Distance: 44m
Canon EOS 7D


Ao fim da primeira hora encontro um bando de 20 Flamingos e fico extasiado. Aproximo-me ao ritmo de  10 passos por minuto e sinto que os Flamingos começam a ficar nervosos. Apercebo-me que a cobertura improvisada do Hidro com redes de camuflagem ficou mal presa e começa a arrastar vegetação com ela criando muita ondulação. Os Flamingos assustam-se e voam para as minhas costas a uns bons 300 metros desse local. Após limpar a vegetação que se prendia às redes, volto imediatamente para trás na senda dos Flamingos. Aproximei-me da margem mais confortável e segui em "velocidade de cruzeiro"  até me aproximar a uns 100 metros das aves. Tudo parecia correr bem, apesar das poucas precauções. Ao aproximar-me da margem onde se encontravam os Flamingos senti que o nível da água estava a aproximar-se da zona proibida-  a linha a altura do peito limitada pelo fim das Waders. Mas estava tão perto e a volta que teria que fazer era tão longa que resolvi arriscar em "bicos dos pés". Sempre achei que "o excesso de confiança é inimigo da segurança" mas achei que naquele momento esse pensamento seria exagerado, afinal eram só 4 metros. Em 4 metros não pode afundar tanto assim. E segui, segui até que me faltou o pé. Segui a nadar nos 3 metros que me restavam sabendo que com calma chegaria à margem sem problema. Ao nadar senti qualquer coisa a prender-me os pés. Era a rede de camuflagem mal presa que fazia de véu no Hidrohide e que agora me estava a importunar neste momento tão importante. Com receio de me enlear na rede e ficar sem hipóteses de nadar ou meter os pés no chão, tomei a única e difícil decisão de meter os pés no solo mesmo que isso implicasse a entrada de alguma água. Não entrou alguma, entraram litros e litros de água gelada que me congelaram em segundos. Fiquei sem respirar uns 20 segundos e os músculos das pernas começaram de imediato a doer. Nos 3 a 4 minutos que demorei a sair da água comecei a sentir tonturas e sabia que tinha de me aquecer rapidamente. Coloquei as roupas a secar na lateral do carro e liguei  o AC no máximo. A roupa interior pendurada com no espelho retrovisor com a as bocas do AC viradas para ela demoram uns bons 45 minutos a ficar secas mas a outra roupa nunca ficou realmente em condições de se vestir. Esta situação constrangedora de estar dentro do  carrinha enrolado apenas num casaco com caçadores a passar no local e olhar com curiosidade para a maluqueira que aquele cenário deixava adivinhar só podia piorar ao verificar que tinha perdido o telemóvel. Onde teria deixado o tão desejado aparelho que agora me fazia falta pela companhia. Depois de ter feito um exercício de memória: F#%R-S3!!!! Ficou num dos bolsos dos polares que supostamente devia ter ficado no carro para me aquecer quando voltasse mas que  por causa do frio foi comigo para dentro de água. O que encontrei no bolso do casaco foi apenas um "mini-aquário" muito parecido com um Smartphone. Resumo: quando tudo pode correr mal, vai correr pior ainda.

Ficam os únicos consolos de uma manhã atribulada: as imagens! : (


Galeirão-comum (Fulica atra)



1/320s, f/8, ISO800, -0.7Ev
Mode: A, Meter: Partial, No Flash, Manual WB
Focal: 500mm, Distance: 21m
Canon EOS 7D

 Flamingo-comum (Phoenicopterus roseus)




1/1250s, f/6.3, ISO200, -0.3Ev
Mode: A, Meter: Partial, No Flash, Manual WB
Focal: 500mm
Canon EOS 7D


10 comentários:

Gonçalo Rosa disse...

Bela história, Ricardo. O que um tipo sofre às vezes para conseguir umas fotos. É a obcessão, meu caro :)))

Diogo Oliveira disse...

Epah a lei de Murphy é realmente lixada, e o pior é quando julgamos que entra apenas um pedacinho de água e vamos a ver está uma autêntica inundação por todo o lado =s a mim aconteceu-me com as galochas, parecia apenas uma gotinha e tinha água até aos joelhos xD quanto ao telemovel, os meus pesamos =s embora ainda tenha salvação, uma caixa com as pedrinhas mágicas durante umas boas semanas e ele fica como novo ;) abraço, e grande aventura =D

Ana Lúcia disse...

;) Ossos do ofício!

Ana C. Nunes disse...

Que peripécias! Há dias que se pensa q1ue era melhor nem termos saído de casa, mas ainda assim conseguiu algumas belas fotos por isso não foi desperdício total.

ferreiro disse...

menuda preciosidad de fotos un saludo

Francisco Calado disse...

Pois é Ricardo, situações tramadas que servem também para mais tarde não repetir a mesma dose.
Mas se calhar até valeu a pena, sei que o frio é diabólico, mas ficaste com mais uma história e mais umas imagens.

Gosto muito do Perna-longa.

Abraço

Gonçalo Lemos disse...

My friend, a foto do Perna-longa tá fabulosa!

Sérgio Pontes disse...

Gostei muito das fotos, mas gostei especialmente dos tons da primeira foto

JM disse...

Parabéns pelo excelente trabalho!

Hélio Cristóvão disse...

Boa aventura... Faz parte das histórias na fotografia que ficam para contar no futuro : )
A foto do Mergulhão-pequeno, grande malha!
Abraço